Seja principiante ou pescador experiente, uma semana de pesca do salmão atlântico no rio Delay fica gravada na memória.
Antes desta aventura, a minha pesca em Québec tinha sido sobretudo em lagos — em Meekos e Notawissi — e em rios da Costa Norte, no fim da temporada, em La Corneille. Belas memórias. Mas esta semana no Delay levou-me a outro universo de pesca.
Aqui tudo começa antes do primeiro lançamento. Chegar já é uma aventura.
Chegar ao rio Delay: a aventura começa no ar
Partida cedo de Montréal, cerca de duas horas de voo rumo norte até Kuujjuaq. Kuujjuaq é a maior comunidade do Nunavik, com cerca de 3.000 habitantes. O Québec do vale do São Lourenço já parece distante.
De Kuujjuaq, as opções são simples: moto de neve no inverno; o resto do ano, avião.
Subimos a um Twin Otter privado para o acampamento de pesca. O avião pousa numa pista de terra, a poucas centenas de metros do lodge. Ao descer, percebe-se que se mudou de mundo.
O que impressiona primeiro é a imensidão. Depois a solidão. Até Google Maps parece hesitar: um ponto perdido no Nunavik, rodeado de água, rocha, tundra e silêncio.
Para um viajante europeu habituado a estradas, aldeias próximas e paisagens habitadas, chegar ao Delay traz uma sensação rara: estar realmente no fim do mundo.
Um acampamento confortável no coração da natureza selvagem
O acampamento está totalmente isolado, mas oferece tudo para uma semana de pesca confortável: vários chalés de quatro a seis lugares, um lodge com bar, espaços comuns acolhedores e até internet muito decente.
O acampamento foi construído em 1997. Centenas de rotações em hidroavião para os materiais — uma ideia do esforço humano e logístico.
Do acampamento, trilhos permitem caminhar 15 ou 20 minutos ao redor dos edifícios. Dezenas de pegadas de caribu. E sobretudo, domina-se o imenso rio Delay.
Largo, majestoso, poderoso — impõe respeito de imediato. Grande variedade de sectores: alguns em 15 minutos de canoa, outros quase uma hora rio acima ou abaixo do acampamento.
Seguindo a corrente com o olhar, começa-se a sonhar. Kuujjuaq está cerca de 150 quilómetros mais abaixo pelo rio. Será possível chegar assim? Provavelmente. Uma aventura para organizar um dia.
Um dia típico de pesca no Delay
Os dias começam tranquilos mas sérios. Acordar às 8 h, pequeno-almoço sólido, partida com guia e parceiro de pesca.
Embarcamos em grandes canoas de madeira, cerca de seis ou sete metros. Cada dia o sector depende do nível do rio, meteorologia, condições e sobretudo a experiência dos guias.
Alguns postos estão a meio do rio. Outros ao longo das margens, com água até aos tornozelos, joelhos, às vezes à cintura.
Gradualmente aprende-se as boas rochas, as linhas de corrente, as poças de salmão. O rio revela os segredos um a um. O paisagem muda sem parar: céu, tundra e água com cores diferentes cada hora.
Ao almoço, duas opções: voltar ao lodge, por vezes com 30 minutos de descanso. Ou lunch box no barco, na margem ou numa cabana de madeira uma hora rio acima.
Regresso ao acampamento por volta das 17 h. Dias longos de pesca, mas nenhum pareceu demasiado longo. A mente alterna concentração, contemplação e conversa com o guia.
Desligado do mundo moderno, profundamente ligado aos paisagens, ao rio e à natureza. O tempo passa de outro modo.
A arte da pesca com mosca
A pesca com mosca é escola de paciência. É também desporto. E muito depressa percebe-se que é uma arte.
De longe, o lançamento parece simples, fluido, quase evidente. Na prática, é mais exigente. Moscas que caem dois metros à frente, prendem-se ao boné ou acabam num arbusto atrás da margem.
Observa pescadores mais experientes. Ouve o guia. E tenta de novo. Uma e outra vez.
Com a prática, o gesto torna-se natural. Braço e cotovelo podem estar um pouco cansados na manhã seguinte, mas o progresso é real. Mais fluidez, depois distância. Cobre mais rio com precisão — e aumentam as chances de tocar um peixe.
Cada dia traz a sua recompensa: toques, peixes perdidos perto da rede, trutas devolvidas, espera, dúvida, depois emoção.
E muitas vezes volta um pensamento: a incrível jornada destes salmões atlânticos. Foram ao mar para alimentar-se, depois regressam após vários anos ao rio natal para desovar. Milhares de quilómetros — cada encontro quase mítico.
O meu primeiro salmão atlântico
Quando fisga um salmão de bom tamanho, sente-se de imediato. Puxa forte. Muito forte. A luta é física. O peixe salta da água, por vezes várias vezes. Alterna enrolar e deixar correr, cansar o salmão sem forçar, pés firmes, resistir à corrente, manter a concentração.
Pouco a pouco aproxima-se.
A minha luta durou cerca de 15 minutos. O salmão saltou uma dúzia de vezes antes de o guia meter a rede.
Nesse instante, o sorriso vem sozinho. Satisfação e orgulho — afinal, era o meu primeiro salmão atlântico.
Algumas fotos para imortalizar o momento. O salmão com cuidado em ambas as mãos. Depois devolução à água contra a corrente, suavemente, e ver como recupera forças.
Ver-o partir para viver no rio é quase tão forte como capturá-lo.
Uma estadia de pesca, mas também histórias de encontros
Uma semana num lugar tão isolado deixa tempo para conversar, discutir e partilhar.
Primeiro o parceiro de pesca. Para mim, Martin, que me fez descobrir Québec e muitas atividades ao ar livre nas pourvoiries.
Amigos também, como Charles e Jean-Christophe, parceiros num outro sítio magnífico no fiordo do Saguenay.
E claro os guias e toda a equipa do acampamento, atenta às refeições, conforto e ambiente.
Uma menção especial a Paul Ostiguy, que opera este acampamento, conhece o Nunavik e torna excecional este tipo de estadia. Num ambiente tão remoto, a qualidade humana de quem acompanha faz toda a diferença.
Por que esta estadia marca tanto um viajante europeu
Para um europeu que sonha com grandes espaços, o rio Delay oferece uma experiência difícil de comparar. Distâncias, isolamento, logística aérea, salmão atlântico, pegadas de caribu, luzes mutáveis do Nunavik — algo raro. Uma estadia de pesca, sim. Mas sobretudo imersão em natureza crua, pouco habitada, ainda viva.
Este tipo de estadia convém a quem busca mais do que uma viagem de pesca clássica. Natureza, paciência, encontros e desconexão fazem parte da experiência como o salmão.
E depois?
Após uma semana assim, uma coisa é certa: voltarei. Pelas auroras boreais, frequentes nestas latitudes. E sobretudo para ver a migração do caribu — centenas de animais cruzando o acampamento. Há que ver pelo menos uma vez na vida. Também quero levar amigos.
Sobretudo, continuar a explorar Québec e a sua natureza infinita.
Há tanto a fazer.
Para descobrir mais experiências de pesca, caça e aventura natural em Québec, Mitik Nature acompanha os viajantes na preparação de estadias autênticas, guiadas e adaptadas aos seus desejos.
Descubra estadias natureza em Québec em mitiknature.com
SUGESTÕES DE LEITURA DO THIERRY:
Les Inuits du Nunavik, Terre, histoire et société : https://shorturl.at/dDQ4h










